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domingo, maio 08, 2005

Adeus & Rain (I Want a Divorce)

Não sou grande apreciadora de poesia. Não sei bem porquê, porque até admiro muito os poetas e aquelas pessoas que conseguem pôr os seus sentimentos em verso; mas a poesia em si... não é que não goste. Mas não sou daquelas pessoas que pegam num livro de poesia e se sentam ali uma tarde inteira a ler versos.

Há excepções, claro. Adeus de Eugénio Andrade, por exemplo, é um poema que gosto mesmo muito. Tem um je-ne-sais-quoi... Então quando é lido ao som de Rain (I Want a Divorce), do Grande Sakamoto (a música faz parte da banda sonora d' O Último Emperador) é o combo perfeito. Não sei se isto terá alguma coisa a ver com uma certa apresentação que eu fiz para português há um ou dois anos atrás...

De qualquer maneira, aqui fica o poema. Se tiverem oportunidade ouçam a música, que é bonita, assim como toda a banda sonora. O filme também parece que é bom...
**

Adeus

Já gastámos as palavras pela rua, meu amor,
e o que nos ficou não chega
para afastar o frio de quatro paredes.
Gastámos tudo menos o silêncio.
Gastámos os olhos com o sal das lágrimas,
gastámos as mãos à força de as apertarmos,
gastámos o relógio e as pedras das esquinas
em esperas inúteis.

Meto as mãos nas algibeiras e não encontro nada.
Antigamente tínhamos tanto para dar um ao outro;
era como se todas as coisas fossem minhas:
quanto mais te dava mais tinha para te dar.
Às vezes tu dizias: os teus olhos são peixes verdes.
E eu acreditava.
Acreditava,
porque ao teu lado
todas as coisas eram possíveis.

Mas isso era no tempo dos segredos,
era no tempo em que o teu corpo era um aquário,
era no tempo em que os meus olhos
eram realmente peixes verdes.
Hoje são apenas os meus olhos.
É pouco mas é verdade,
uns olhos como todos os outros.

Já gastámos as palavras.
Quando agora digo: meu amor,
já não se passa absolutamente nada.
E no entanto, antes das palavras gastas,
tenho a certeza
de que todas as coisas estremeciam
só de murmurar o teu nome
no silêncio do meu coração.

Não temos já nada para dar.
Dentro de ti
não há nada que me peça água.
O passado é inútil como um trapo.
E já te disse: as palavras estão gastas.

Adeus.

Eugénio de Andrade

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