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quarta-feira, junho 22, 2005

Musas, seres cruéis...!

Este é um post para os escritores, para os poetas, para os artistas, e para todos os demais que têm oportunidade de ter a sua própria consultora de imaginação, aquela que pode dar enorme poder, e no momento a seguir desaparecer deixando a sua vítima abandonada, a arrastar-se pelos cantos, a sentir-se um traste inapto e incompetente. Sim, falo delas, essas maravilhas horríveis, as Musas.

Pessoalmente, não me posso queixar muito. Calhou-me uma criatura amistosa e sonhadora, e de modo geral damo-nos bem. Se bem que ela é mandona, prepotente e uma abusadora de primeira. E tem uma mania tão desagradável de aparecer nas piores alturas! Até aceito que ela goste de vir de mansinho, em bicos de pés, nas minhas costas, para me bater na cabeça com um ideiazona daquelas, precisamente numa altura em que não há papel à mão para a registar; e até aceito que depois não me queira voltar a dizer o que era. Tudo bem, isso são coisas próprias desses diabretes, mas isto?? Vir importunar-me, mais produtiva que nunca, em época de exames nacionais? Não dá. Não dá mesmo.

Daí esta carta. Pode ser que ela a leia, quando sair do armário. Sim, porque eu sei que ela vai conseguir sair - já saiu ontem, nem sei como, quando a fechei lá à força. E mesmo lá dentro não pára de falar... E o pior é que diz coisas interessantes! Sempre a matraquear, sempre, sempre. Cala-te, mulher de Deus! Deixa-me estudar...

Vocês que conhecem estas criaturas compreendem-me, eu sei. É sempre uma relação de amor-ódio, não é? Enfim. Tentei ser o mais delicada possível nesta cartinha que lhe deixo, porque senão aquele diabo amua e desaparece durante tempos incertos... Ai, Musas, que seres cruéis!
**

Minha adorada, minha preciosa, minha essência..., sabes que eu te adoro, sabes que iluminas a minha vida, e que tornas os meus dias interessantes. Não conseguia viver sem ti. Mas, por favor, por favor, deixa-me em paz um bocadinho!

Já te disse, e repito: os exames não são altura para me visitares. Muito menos para montares uma tenda debaixo da minha cama e falares comigo enquanto eu estou a tentar dormir. Esta também não é a altura apropriada para fazeres aparições durante a hora do banho, ou esconderes papelinhos com ideias potencialmente brilhantes no Acesso de Biologia.

É que isto é mesmo importante. Se estiveres sempre a distrair-me, como é que eu vou tirar alguma nota de jeito? E se não tirar notas de jeito vai ser uma desgraça porque não entro, e fico um ano a recenciar gambozinos. Deve ser isso que queres - um ano inteirinho só para ti... Eu também queria, mas não assim.

Proponho-te um acordo: tu vais de férias para Jerusalém até dia vinte do próximo mês, deixas-me trabalhar e fazer a vidinha que os exames malvados exigem, e depois, quando voltares, tens toda a minha atenção. Levas o Adão e os outros contigo, e divertem-se todos muito lá, passeiam no Getsémani, tomam banho no Jordão, comem falafel, e isso tudo. Fazes isso por mim, Musa adorada?

Mal posso esperar pelo fim desta época; anseio pelo dia em que voltares e eu tenha todo o tempo do mundo para te dar. Tenho saudades daquelas noites em que te sentavas na secretária ao meu lado e desatavas a falar pelos cotovelos, com aquela musicalidade que só tu tens. Ah! se eu conseguisse pôr no papel as coisas como tu mas dizes... Mas sabes, talvez isso fosse mais fácil se não me acorrentasses ao computador e me deixasses fazer uns intervalinhos, assim para comer, ou dormir... Mas não me estou a queixar, longe de mim.

...E aquelas manhãs de inverno em que te empoleiravas no monitor a comer bolachas e me deixavas o teclado cheio de migalhas? Ou as tardes em que me levavas para o sol e me segredavas tramas ao ouvido... Ah, bons tempos.

Então, até dia vinte à tarde. Vai, diverte-te, e deixa-me "divertir-me" com os meus exames. Prometo que quando voltares serei toda ouvidos...

(Alguém lá em cima tenha piedade dos meus dedos, coitadinhos, vão ser tão massacrados...)

Boas férias, minha Musa, e deseja-me sorte!

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